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Justiça : A SÉRIE
Enviado por alexandre em 17/04/2021 22:32:13

Gigolô Americano - A série sem fim
Por Weiller Diniz*

O francês “Le Monde” chacoalhou o país com uma pedagógica reportagem expondo a permissividade da Lava Jato aos interesses norte-americanos no Brasil, políticos e econômicos. A contundência é irretorquível: “Algo está podre no Estado do Brasil. O país inteiro está sendo atingido por uma série de crises simultâneas, uma espécie de tempestade perfeita – recessão econômica, desastres ambientais, polarização política extrema, Covid-19 e agora o naufrágio do sistema judicial”.

A reportagem reconstituiu as promiscuidades de Sérgio Moro, agindo como agente infiltrado dos EUA, e concluiu: “Um magistrado julgado ‘tendencioso’, uma equipe de promotores cujos métodos às vezes eram ilegais, a intervenção dos Estados Unidos e, por fim, um escândalo retumbante: a Lava Jato serviu a muitos interesses, mas não à democracia”.

Transbordam imoralidades entre a “equipe de Moro” na Lava Jato e orgias ilícitas com agências internacionais: CIA, FBI, Departamento de Justiça dos EUA e de outros países. Em 06/07/2015, os procuradores Deltan Dallagnol e Orlando Martello Júnior revelam uma relação adúltera com agências externas, com a perspectiva de “regularizar a posteriori” e Deltan escarnece: “Faz tpo (tempo) que não tenho vergonha na cara kkkk”. Ao vibrar com a ordem de prisão do ex-presidente Lula, Dallagnol é licencioso: “foi um presente da CIA”. As perversões da Lava Jato, como prisões arbitrárias, vazamentos seletivos, delações, desrespeito aos direitos individuais, alvos pré-selecionados, blindagem de aliados e manipulações são libertinagens largamente utilizadas pelos EUA em conspirações mundo afora.

A infidelidade da Lava Jato com a Nação seria recompensada com parte dos recursos recuperados. O michê pela ‘bovaryzação’ lubrificaria o projeto próprio de poder da operação com candidatos em todos os estados, defendido por Dallagnol, e, quem sabe, a lascívia presidencial de Sérgio Moro. “Nós estamos com pressa, porque o DOJ [Departamento de Justiça dos EUA] já veio e teve encontro formal com os advogados dos colaboradores, e a partir daí os advogados vão resolver a situação dos clientes lá… Isso atende o que os americanos precisam e não dependerão mais de nós. A partir daí perderemos força para negociar divisão do dinheiro que recuperarem. Daí nossa pressa”, disse Dallagnol em um grupo, excitado com o cofrinho bilionário.

A quebra da soberania com objetivos políticos e/ou financeiros é outro ofício muito antigo do mundo. Em nome de interesses inconfessáveis, a CIA patrocinou vários golpes e intervenções. Brasil e Chile foram cenários de duas grandes operações: a derrubada dos presidentes João Goulart e Salvador Allende para a instalação de ditaduras militares. A CIA financiou políticos e manifestações contra Jango com lemas mundanos contra o comunismo. O general e adido no Brasil Vernon Walters, segundo homem da CIA, era o gigolô dos EUA contra a ameaça da casa da luz vermelha. Hoje os tanques são anacrônicos. A guerra híbrida prostitui órgãos de Estado para os golpes “constitucionalizados”. Nos fatos narrados pelo “Le Monde”, houve cooptação de parte da Justiça brasileira e do MP, tendo na ponta da linha a Polícia Federal, velha cortesã dos EUA.

Entre 2002 e 2004 – nostalgia dos tempos de jornalismo investigativo – publiquei na Revista “Isto É” uma série de reportagens, documentalmente comprovadas, expondo órgãos que se rebaixaram ao poderio financeiro dos EUA. A Polícia Federal foi ‘cafetinada’ pelos norte-americanos em troca de dólares em malas, depósitos ilegais para remunerar simpatizantes que compartilhassem investigações confidenciais, inclusive informações sobre segurança nacional. A arapongagem se infiltrou em um bureau estratégico da PF: CDO (Centro de Dados Operacionais), onde FHC foi grampeado. A missão não era derrubá-lo, mas monitorá-lo e assegurar que a empresa dos EUA – Raytheon – abocanhasse a bilionária licitação dos radares do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) contra a francesa Thomson. O valor era de US$ 1,4 bi e uma ‘dica’ do serviço de informações dos EUA foi capital para o triunfo da Raytheon.

O ex-corregedor da PF, o delegado Arthur Lobo, viu evaporar a tentativa de investigar o escândalo e sintetizou: “Aí é o velho esquema: paga quem quer, mantém quem quer e xereta o que quer. Isso não é invasão de soberania? É coisa muito pior. Grampearam o presidente.” Lobo se referia ao grampo em FHC e seu braço-direito, o embaixador Júlio Cesar Gomes. Toda volúpia clandestina da CIA foi denunciada formalmente aos superiores por dois tiras da elite da PF, José Roberto Benedito Pereira e Luiz Zubcov. Ela se transformou na sindicância 1414/97 com imputações gravíssimas e obscenas. “O equipamento usado para grampear FCH era da CIA”, disse à época Benedito Pereira. A “CIA se valia do programa de cooperação com a PF para manter sua base de coleta de informações no Brasil”, reforçou Zubcov. Benedito Pereira também indicou o agente da CIA à época: Robert Evans, camuflado em um cargo na embaixada norte-americana.

O “mantém quem quer e xereta o que quer”, realçado por Arthur Lobo, aludia a Getúlio Bezerra. Um delegado que, por anos, mandou mais que seus superiores hierárquicos. A origem do poder: ele recebia as malas de dinheiro e mantinha duas contas correntes para depósito dos recursos dos EUA, invisíveis ao controle público e à fiscalização brasileira. Nem Congresso Nacional, nem TCU sabiam do orçamento paralelo. As prestações de contas eram feitas apenas à embaixada dos EUA. No Banco do Brasil, o delegado mantinha a conta corrente de número 284.002-2, agência 3476-2, abastecida secreta e regularmente pelo DEA – Drug Enforcement Administration –, a agência de combate ao narcotráfico dos EUA. Na conta do BB passaram pelas mãos de Bezerra R$ 11 milhões entre 1999 e dezembro de 2002.

Uma base de dados das contas CC5 (não-residentes) mostrou que, entre março e setembro de 1999, Bezerra também recebeu grana através de outra conta, número 200323 do Unibanco. Foram 7 depósitos menores, que somaram R$ 244 mil. No BB ele operava desde 25 de março de 1999. Chegou a receber R$ 53,7 mil na conta do Unibanco, no dia 13 de agosto de 1999, e, no mesmo dia, recebeu dois depósitos na conta do BB. O primeiro de R$ 37 mil e o outro de R$ 73 mil. Ele não era único parceiro dos americanos na PF. Na mesma época o delegado Mauro Espósito também mantinha duas contas e recebia os agrados ianques. Em 11 de novembro de 1998 recebeu R$ 30 mil na conta 40665 da Caixa Econômica Federal e mais R$ 20 mil em uma conta não especificada no BB. Apenas a conta do Banco do Brasil de Bezerra era de conhecimento da direção da PF, disse-me à época o diretor da PF, Paulo Lacerda.

Depois das denúncias, uma segunda investigação sobre fundos clandestinos da PF foi aberta na COIE. Novo nome dado ao CDO, onde FHC foi grampeado. O resultado da sindicância 003/2003 – concluída em 5 de maio daquele ano – era pornográfico. Foram 46 páginas com 14 depoimentos de tiras da elite e do doleiro George Fouad Kammoun, que fazia o câmbio dos federais no submundo do crime. A PF tinha um doleiro de estimação e a troca dos dólares ilícitos com um fora da lei contava até com escoltas. O delegado Rômulo Berredo, escalado para apurar a devassidão, pediu um inquérito para responsabilizar os culpados. Ele identificou crimes contra o sistema financeiro e a Lei de Licitações: “Um setor da PF se acha na mais completa insustentabilidade jurídica, o que ocasionaria a ilegalidade dos atos ali praticados”, dizia o relatório final. Além da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), a COIE também recebia o patrocínio clandestino dos EUA.

A então servidora Maria Celina Martins (da contabilidade da Coordenação de Operações de Inteligência Especializada- COIE) explicou em seu depoimento que o sistema de pagamento pelos EUA era feito de acordo com a despesa. “A média de ressarcimento mensal é de R$ 160 a R$ 200 mil com recibos e notas fiscais. Feito o balancete, uma pessoa da embaixada vai à COIE e retira a prestação de contas. Já foram realizadas três ou quatro auditorias pelo governo americano”, revelou. O zelo se explica. Pelos números apresentados, a “boquinha” girava entre R$ 2 milhões e R$ 2,4 milhões por ano, perto de R$ 19 milhões em oito anos. Celina contou que a operação na COIE era feita com grana viva, ora dólares, ora reais, como nos lupanares.

“O dinheiro do ressarcimento das despesas é sempre trazido ao setor em espécie, sendo guardado no cofre e distribuído conforme a necessidade. Antes de o delegado Rosseti (Disney Rosseti, que chefiou a COIE) assumir a chefia, a verba do setor era recebida da embaixada em dólares americanos (em espécie), os quais eram depositados em conta corrente do delegado Getúlio Bezerra”. Ele também chefiou a Diretoria de Combate ao Crime Organizado. Antes Bezerra dirigia a Delegacia de Repressão a Entorpecentes. Todo esse bacanal contábil e financeiro era feito com base em um acordo de cooperação de 1997, igualmente invisível e ilícito. “Tal modalidade de entrega (em dólares) fere a qualquer padrão legal/formal capaz de dar um mínimo de credibilidade ao processo”, reprovou em vão o delegado Berredo no relatório final.

O então chefe dessa unidade na PF (COIE), Disney Rossetti, que foi interino da PF após a demissão de Sérgio Moro e Maurício Valeixo em 2020, também depôs e disse acreditar que o departamento era frequentado por agentes camuflados da CIA: “Em média duas vezes por semana comparecem à COIE. São sempre oficiais de ligação. Não tenho como afirmar categoricamente se algum deles tem vinculação com a CIA, embora acredite que pertençam à agência americana.” A diretora de inteligência policial (DIP), Mariam Ibrahim, escancarou o rendez-vous financeiro de então: “Toda verba utilizada nas atividades da COIE é fornecida pelo governo dos Estados Unidos através da embaixada em Brasília.”

A operação Diamante – iniciada pelo Ofício 300/2000, do poderoso Getúlio Bezerra – era uma das vedetes da PF naquela década. Após três anos de investigação em dez estados, uma das maiores quadrilhas do tráfico internacional, capitaneada por Leonardo Mendonça – preso em Goiânia –, foi desbaratada. Mendonça e o traficante Emival das Dores eram celebridades nos EUA. Os dois figuravam entre os dez mais procurados pelo DEA. A operação Diamante rendeu 28 prisões, e ilustres nomes caíram em desgraça. Um dos resultados foi a renúncia do ex-deputado federal Pinheiro Landin e o afastamento do cargo de dois magistrados: Vicente Leal, ministro do STJ e Eustáquio Silveira desembargador do TRF1, acusados de venda de sentenças.

O advogado de um dos investigados entrou na Justiça com um pedido explosivo: a anulação das escutas telefônicas. O que sustentava o pedido do advogado eram os CDs, que traziam as milhares de horas com gravações autorizadas judicialmente de todo bordel. Ao abrir os CDs, constatou-se que 22 gravações tinham como autora, oficializada no processo, a embaixada norte-americana. O relatório intitulado de Final da Operação Diamante, de 21 de janeiro de 2003, é um dos CDs que trazem como autor a Embaixada USA e “gravado por Embaixada USA”. Em um ofício à Justiça, o delegado Ronaldo Urbano da PF confirmou que os equipamentos eram dos EUA, de fato. O orgulho virou vergonha e a PF não passou barriga de aluguel na operação. Até onde se sabe, nenhuma dessas promiscuidades gerou punições além do strip-tease nas 2 sindicâncias.

Nos filmes, os agentes da CIA podem tudo. Espionam, compram informação, roubam documentos, matam e derrubam governos. As leis dos outros países são ignoradas. Na vida real o rufianismo segue desinibido. Depois do fim da guerra fria, os órgãos de espionagem dos EUA, para manter o status e justificar a manutenção dos orçamentos, passaram a trabalhar em espionagem comercial, monitorando acordos internacionais de interesse de empresas americanas. O Brasil nunca saiu do radar. Se há 20 anos o interesse era o SIVAM, agora, desenhou o “Le Monde”, a ação foi mais ambiciosa, para diminuir a influência geopolítica do Brasil e conter o avanço econômico do país. O gigolô Tio Sam segue mandando na casa de tolerância. Só que na Lava Jato recrutaram 2 estagiários que estão nus: Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

*Jornalista. Texto publicado originalmente no portal Os divergentes.

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