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Policial : DE MÁRTIR A ALGOZ
Enviado por alexandre em 27/05/2022 16:25:01

Polícia Rodoviária Federal e sua Via Crucis

DE MÁRTIR A ALGOZ – A Polícia Rodoviária Federal e sua Via Crucis

Por Magno Martins, edição de Ítala Alves

Por João Elias da Silva Filho*

Toda a mídia nacional divulgou, em tom de solidariedade para com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a perda de dois dos seus membros, Márcio Hélio Almeida de Souza e Raimundo Bonifácio do Nascimento Filho que, no cumprimento de suas missões, foram mortos no dia 18 de maio, na BR-116 (Cidade dos Funcionários, Fortaleza-CE). Eles foram vítimas de disparos de arma de fogo desferidos por Antônio Wagner Quirino da Silva (31 anos), que na oportunidade demonstrava sinais de inconsciência psiquiátrica. A tragédia foi ao ápice com a morte em seguida do autor dos disparos contra os policiais.

Não se cogitou sobre o possível equívoco das duas primeiras vítimas em se permitir, portando armas de fogo coldreadas, envolver num choque físico com uma pessoa jovem, aparentemente sem debilidades e nitidamente perturbada. A mídia se distanciou das cogitações que eram até cabíveis à época, tais como: Por que, diante do cenário, os agentes não se limitaram a sinalizar o trânsito e a acionar o corpo de bombeiros ou apoio do SAMU? Afinal, Antônio Wagner e usuários corriam riscos por causa do comportamento anômalo de caminhar na contramão e no centro da faixa de rodagem.

A tragédia foi tão grande que os questionamentos sobre a motivação foram deixados ao largo, afinal aqueles agentes agiram claramente no intuito de preservar vidas, primeiramente a de Antônio Wagner. Como heróis, tombaram sobre o terreno que cotidianamente era o local do cumprimento de seus deveres, e como tal foram tratados pela nação. Um clima de consternação nos sobreveio, pois, as chocantes imagens divulgaram o acontecimento de fato muito estranho. A PRF, tratada como um corpo patriótico ferido, foi acalentada por todos – poderes, instituições, imprensa, políticos e cidadãos comuns.

Como se a desgraça não tivesse sido bastante, exsurge, no dia 25 de maio, na BR-101 (Umbaúba, Aracaju-SE), uma sombria ocorrência envolvendo membros da PRF, que culminou na morte de Genivaldo de Jesus Santos (38 anos). Imagens muito impactantes são reveladoras de uma ação de agentes da PRF que está sendo repudiada por todos. Não temos o intuito de expor juízo algum de valor sobre o fato em si, uma vez que as investigações se encontram em andamento e não ser de nosso alcance qualquer atuação no caso. Confiamos em absoluto na prontidão, resiliência e capacidade das instituições para esclarecer a ocorrência e dar o encaminhamento merecido, o que servirá também de prestação de contas à sociedade.

Parece até uma trama sobrenatural. Repentinamente, um mundo totalmente tenebroso se abate sobre a PRF. É compreensível a revolta porque as imagens desse último acontecimento causam aflição e angústia em qualquer ser humano que possua um nível de empatia e um senso crítico moral mediano. É que a sociedade ficou estarrecida com as mortes nas duas situações. Alcança-nos de imediato, a sensação de impotência e medo. Se agentes treinados pelo Estado são vitimizados com tanta facilidade e se eles se envolvem em vitimização, aparentemente desnecessária e cruel, onde encontrará segurança o cidadão comum?

Pois bem! No centro desses dois acontecimentos está a instituição Polícia Rodoviária Federal e, sobre esse fato, compreendo que precisamos proteger a instituição. As duas situações foram fatos tão isolados, esquisitos e anormais na rotina da PRF, que ambas causaram grande comoção. É de suma importância destacar que a instituição é formada em sua quase totalidade, por homens e mulheres comprometidos com as obrigações institucionais. Impossível obscurecer o protagonismo que a PRF tem na proteção de todas as pessoas que diariamente usam nossas rodovias, no combate ao narcotráfico e na recuperação de veículos furtados/roubados. A ostensividade da PRF tem sido prevenção de roubos de cargas e de diversas outras modalidades de crimes.

Um legado como o da PRF não pode ser aquilatado por ocorrências isoladas. Cabe aos que cumprirão o complexo mister de atuar nas duas fases da persecução penal (investigação e instrução processual), o grave cuidado de não deixar que se confunda a instituição e sua razão existencial com atitudes isoladas de alguns de seus membros. Na verdade, a atuação desses técnicos deverá obrigatoriamente, também proteger a PRF que é um patrimônio ímpar da segurança brasileira.

Pessoalmente, já estivemos com missão semelhante – apurar responsabilidades e proteger instituições – e sabemos o quanto é pantanoso o trilhar num terreno como esse, contudo, com muita atenção e visão técnica, conseguimos manter essa necessária diferenciação até o encaminhamento jurídico que nos coube.

Além do mais urge a necessidade de que não só os representantes do Estado, mas cada cidadão se torne um baluarte na defesa das instituições nacionais, pois elas carregam a gênese existencial de nossa democracia e, por conseguinte, são garantidoras de nossas liberdades.

*Promotor de Justiça em Pernambuco

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