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Policial : CASO FLORDELIS
Enviado por alexandre em 25/08/2020 14:50:00

Entenda a participação de cada um no crime de morte

"Não se trata de uma família, mas de uma organização criminosa", foi assim que o delegado Allan Duarte definiu o grupo formado pela deputada federal Flordelis (PSD-RJ) e os demais acusados de envolvimento no assassinato do marido dela, o pastor Anderson do Carmo, em junho do ano passado. Segundo a investigação da Polícia Civil, a parlamentar foi quem orquestrou o crime, que envolveu oito integrantes da família.

 

O inquérito, aceito pelo Ministério Público, narra uma trama complexa e uma dinâmica familiar diametralmente oposta à imagem puritana que o casal transmitia em cultos e eventos pentecostais pelo país.

 

O enredo inclui sexo, traições, envenenamento, rituais nada cristãos e até a prática das famosas "rachadinhas" — desvio de dinheiro de funcionários de gabinete.

 

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Um ano e dois meses depois do crime e de uma investigação cheia de reviravoltas, a polícia concluiu o inquérito. Aos três suspeitos já presos, se juntaram mais cinco filhos de Flordelis, uma neta e a mulher de um dos detidos anteriormente.

 

A deputada segue em liberdade, graças ao foro privilegiado, embora a polícia não tenha dúvidas de que ela desempenhou papel central na articulação do crime e em seus desobramentos.

 

Entenda a participação de cada um dos acusados no caso de chocou o país:

 

 

 

Fotos: Reprodução

 

 

Arquiteta de um crime


"Não se trata bem de uma família, mas de uma organização criminosa. Descobrimos que toda aquela imagem altruísta, de decência, era apenas um enredo para ela alcançar objetivos financeiros e a projeção política”.

 

Com essa declaração, o delegado Allan Duarte justificou uma denúncia contra a deputada federal Flordelis dos Santos de Souza (PSD-RJ), agora formalmente acusada de ser a mandante do assassinato do marido, o pastor evangélico Anderson do Carmo, em junho do ano passado.

 

E, de acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio, por trás do enredo montado por Flordelis, que também é pastora evangélica, havia uma trama de traições, sexo, rituais de magia negra e até “rachadinhas” — desvios de salários de funcionários de parlamentares.

 

Flordelis e Anderson tinham 55 filhos, a maioria adotivos. O próprio pastor havia sido adotado pela deputada, e chegou a ser tratado como genro, quando namorou uma de suas filhas. Segundo investigadores, ele controlava a família com mão de ferro, tomando conta de tudo, da partilha dos alimentos às finanças, e ainda administrava a igreja fundada pelo casal, que, até 2019, tinha oito templos.

 

Morto com mais de 30 tiros na garagem de casa, em Pendotiba, Niterói, Anderson era odiado por parte dos filhos e pela mulher, e foi alvo de oito tentativas frustradas de assassinato, inclusive por envenenamento. Ele foi hospitalizado cinco vezes.

 

A família tentou esconder evidências dos crimes, segundo a polícia, e fez uma fogueira no quintal da casa para destruir provas. Mas, pouco a pouco, os indícios apareceram ao longo de um ano e dois meses de investigação.

 

O revólver usado na execução estava em cima do armário de Flávio, filho que admitiu ser o autor dos disparos. Outras confissões e contradições em depoimentos também resultaram em provas, assim como mensagens de celulares que revelaram planos criminosos.

 

Numa das mensagens descobertas por policiais e promotores, Flordelis escreveu a um dos filhos: “André, pelo amor de Deus, vamos por um fim nisso. Me ajuda. Cara, tô te pedindo, te implorando. Até quando vamos ter que suportar esse traste no nosso meio?”. Numa outra, Marzy, uma das filhas, incitou o irmão Lucas a matar o pastor por R$ 10 mil.

 

Por seis vezes, tentaram envenenar Anderson com arsênico. Investigadores comprovaram que duas filhas fizeram pesquisas na internet sobre venenos que teriam sido colocadas em sucos e pratos servidos a Anderson; misturadas a porções de feijão, a molho de macarrão e a sobremesas. Anderson foi internado cinco vezes com problemas digestivos. Numa mensagem de celular, uma das autoras da tentativa de homicídio lamentou: “Ele é ruim de morrer”. A família ainda tentou forjar dois latrocínios (roubo seguido de execução). O último resultou na morte d eAnderson.

 

 

Em um recado enviado aos filhos, Flordelis se justificou sobre o plano de execução. “Fazer o quê? Separar não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus”, escreveu a pastora e cantora gospel. De acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público, parte do grupo participava de orgias com a deputada e o pastor. Além disso, alguns participavam de rituais secretos e tinham braços na atuação parlamentar, dentro do gabinete em Brasília. Esses eram obrigados a fazer “rachadinha” em que devolviam parte de seus salários a Flordelis.

 

Extra



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Câmara dos DeputadosDeputada Flordelis foi apontada como mandante de assassinato do marido; não foi presa por imunidade parlamentar

O homem da motosserra ficou conhecido nos corredores da Câmara dos Deputados pela fala mansa, olhar perigosamente tranquilo como um poço sem fim, andar esquálido e fama de mau. Era a excelência com mãos sujas de sangue e acusado de serrar um adversário com uma motosserra. O rapaz estava vivo quando foi esquartejado. O deputado era, na época, acima da lei, tinha imunidade parlamentar que não existe mais. Era preciso dar autorização para o Supremo abrir inquérito contra o assassino reconhecidamente frio e reincidente. Os deputados, mesmo nesta condição, mantiveram o famoso espírito de corpo. Preferiram cassar o mandato do colega a abrir o precedente e dar autorização para inquérito ou processo. A imunidade parlamentar começou a ser revista ali e caiu de podre. Hoje, a Polícia Civil do Rio de Janeiro não precisou nem de autorização para investigar a deputada Flordelis e seus 50 filhos. O Supremo, e não o Congresso, decidiu que foro especial só vale para a duração do mandato e investigações relativas à função parlamentar. Não há entre as funções dos deputados e senadores nada que indique organizar grupo criminoso ou arquitetar a morte do próprio marido de uma família de faz de contas.

Hildebrando Paschoal é um ex-coronel da Polícia Militar, diplomado pelo Acre e com fama de mau. Foi eleito deputado federal para se esconder de crimes praticados. Já chegou com a ficha repleta. Em 1998 existia a imunidade parlamentar. Antes total, depois exigia a autorização do Congresso para início do processo, mas a autorização nunca era votada e depois a inversão, com a possibilidade do Congresso suspender um processo no Supremo e, por último, a imunidade apenas para voto e fala. Depois, o Supremo praticamente acabou com o foro especial e rediscute até a imunidade no discurso. A imunidade foi criada para proteger o povo, o deputado teria a imunidade para usar em favor da sociedade. Os parlamentares roubaram este instrumento e usaram para os próprios crimes e, se não houvesse mudança, os plenários da Câmara e Senado estariam repletos de criminosos comuns.  Isto é contra a ética da malandragem que impera por aqui. Os crimes aceitos são os de roubo de classe. O ex-deputado foi condenado em júri popular, teve a patente de coronel cassada e está sentenciado a mais de 100 anos.

O ex-deputado Talvane Albuquerque era suplente. Estava decidido a chegar ao plenário da Câmara e fez o desvio. Mandou matar a deputada Ceci Cunha, do PSDB de Alagoas. Tomou posse com festa e presença de toda família no plenário. Em seguida, o crime bárbaro que acabou vitimando o marido e mais dois integrantes da família foi revelado. O médico, com aparência pacata, contratou para a “chacina da gruta” os assassinos Jadielson e José Alexandre como escada para chegar ao poder. Foi cassado e condenado a 103 anos de prisão. O crime foi em 1999, ele foi preso em 2012 e até hoje o caso ainda não está encerrado. O STJ negou, no ano passado, um pedido para anular o julgamento.

Deputada Flordelis, do PSD do Rio de Janeiro, foi a mandante da morte do marido, o pastor Anderson do Carmo. O religioso foi executado pelos filhos do casal em casa com pelo menos seis tiros. E o grave é que houve outras tentativas de assassinato através de veneno colocado na comida dele, mas o desfecho foi mesmo tiros num teatro que tentava passar por “roubo frustrado”, como falou logo depois do assassinato a deputada – chorona como uma viúva desconsolada.  A família diferente, com 55 pessoas, era apresentada como perfeita e íntegra. A religiosidade e espírito altruísta nada mais eram do que lema para campanha com o objetivo claro de poder na igreja e na política. Destes, 11 foram indiciados como mandantes e executores da morte do pastor. O risonho marido sempre acompanhava a esposa parlamentar aqui em Brasília. O delegado Antônio Nunes, acostumado na profissão a desvendar o mal da vida considera este um “crime bárbaro, crime covarde”. Pelo Congresso, ainda não há manifestação de repulsa. Mais um pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro foi apresentado pelo líder do PSD, deputado Alessandro Molon, colega da deputada. Nada de pedido de cassação da Flordelis. Uma questão de tempo. O indiciamento dela é muito forte e a neta da deputada, Rayane dos Santos, foi presa no confortável apartamento funcional gozando das benesses do mandato parlamentar.

A Lava Jato chegou a investigar 60 deputados e senadores. Hoje alguns ex-parlamentares. Ainda há investigação de detentores de mandato, mas o Conselho de Ética da Câmara não tem nenhum processo em andamento. Os casos em avaliação mostram briguinhas parlamentares e queixas de partidos políticos contra os seus próprios parlamentares.  A realidade demora a entrar nos salões verde e azul, onde passam as excelências carregando os seus pecados.

*José Maria Trindade é repórter e comentarista de política da Jovem Pan.

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